Arquivos para outubro, 2009

Sua biblioteca vai virar papel digital.

Milhões de minúsculas esferas. Metade pretas, metade brancas. Todas polarizadas, de modo que, submetidas à carga magnética adequada, criam, uma ao lado da outra, tons que vão do branco total ao preto absoluto, passando pelas mais sutis nuances de cinza. Este é o papel digital, base do tão comentado Kindle e diversos outros devices chamados de livros eletrônicos. A forma mais confortável de ler em meio eletrônico, com reflexão de luz como no papel tradicional, sem oscilações de frequência nem emissão de luz que cansam os olhos, como ocorre no monitor onde você me lê neste exato momento.

O funcionamento é simples: sinal wi-fi, que descarrega arquivos digitais contendo livros, jornais ou revistas completos; armazenados em memória flash e acionados por botões de comando simples e intuitivos, que permitem “virar” páginas, abrir e fechar arquivos de livros e memorizar a página onde você estava, como um marcador de páginas virtual. O Kindle, por exemplo, baixa o acervo da Amazon, por custos bem menores que os de compra de um livro físico.

Já é um sucesso. O grupo de pesquisa de tecnologia Forrester antecipa que cerca de três milhões de leitores eletrônicos sejam vendidos este ano nos Estados Unidos, ante uma base anterior de cerca de um milhão, com a ajuda de preços mais baixos, mais conteúdo e uma melhor distribuição, segundo o G1.

Um único device, toda uma biblioteca. E mais: revistas, informativos, jornais. O Globo, de forma pioneira, já está disponível para os usuários do Kindle, através da loja virtual Amazon. Outros virão rapidamente. Da mesma forma que outros meios de provimento e fabricantes de hardware.
O Google, talvez a maior empresa mundial do ramo hoje, anunciou na semana passada o lançamento do Google Edition para o primeiro semestre do ano que vem, oferecendo inicialmente cerca de meio milhão de livros, em parceria com editoras que já cooperam com a empresa e já licenciaram a ela seus direitos digitais.

Empresas como Fujitsu, Asus, Apple e outros fabricantes de hardware antecipam seus próprios livros eletrônicos em papel digital. A própria Barnes & Nobles, concorrente da Amazon, anuncia seu hardware com o mesmo objetivo do Kindle.

Sua biblioteca em breve vai fazer companhia a sua coleção de LPs, suas fitas VHS e seus negativos fotográficos. Objetos que você guarda com carinho. Mas não usa, em virtude da praticidade com que a tecnologia nos brinda.

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Digit-all places.

Lembro, como você, que no início deste século as pessoas sentavam-se ao redor do rádio, que ocupava espaço privilegiado na sala de estar, a ouvirem música, informarem-se dos acontecimentos (muitas vezes com dias e mesmo semanas de atraso). Lembro também que este espaço foi logo ocupado por aparelhos de televisão que eram montados em móveis pesados, de madeira, muitas vezes com uma eletrola ao lado, e demoravam um bom tempo até que as válvulas aquecessem o suficiente para mostrar a imagem em preto-e-branco.

Isto parece fazer parte de um passado muito remoto, mas foi apenas em 3 de abril de 1950, quando muitos de nós já éramos nascidos e alguns até mesmo crescidos, que pela primeira vez a imagem da TV Tupi entrou em um lar brasileiro. De lá para cá, os televisores transistorizaram-se, miniaturizaram-se e, em consequência, popularizaram-se.

Imagine a quebra de paradigma que foi passar a ter um rádio que mostrava imagens! Que permitiu ver, entre outras coisas, os primeiros passos do homem na Lua, a guerra fria, a morte de Kennedy, a primeira eleição direta após 21 anos de ditadura, apenas para citar alguns momentos importantes que testemunhamos, bem instalados no sofá de casa.

Agora, com a TV Digital, estamos às portas de uma nova quebra de tecnologia. A experiência de ver TV nunca mais será a mesma. A sala de estar está liberada para outros fins: a TV agora está no seu bolso, no celular, no banheiro, na cozinha, no ônibus. Assistir TV passa a ser uma atividade cada vez mais individual e onipresente em seu dia-a-dia. Melhor dizendo, um atividade também mais individual, pois a telona de LCD trará para esta sala quase a mesma sensação de estarmos num cinema.

A interatividade, tão apregoada, não creio que virá. Além das limitações tecnológicas – os televisores digitais ainda serão aparelhos one-way, sem mecanismos de retorno – a internet cumpre com mais facilidade e versatilidade com as prerrogativas da interação. Mas a TV cumprirá um papel importante, mantendo-nos informados e levando entretenimento até onde estivermos. Não estamos mais em função da televisão, ela é que passa a estar em função de cada um de nós. Digit-all. All places. All time.

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Adeus, zapping. Bem vindo, Youtube.

Uma expressão que você já conhece – o zapping, que consiste em manter-se a mudar de canal continuamente até encontrar um programa de seu interesse – está com os dias contados. Da mesma forma, as tradicionais discussões entre marido e mulher para ver quem fica com o controle remoto e o olho grudado no relógio para ver a que hora começa sua série preferida.

Sim, a programação sob demanda já está ao alcance de nossas mãos. Mais especificamente ao alcance do dedo indicador, que clica o mouse. O Youtube, que surgiu como uma ferramenta para compartilhamento de vídeo, é um dos sites mais acessados no mundo.

Em julho de 2008, segundo
http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u443647.shtml, apenas nos EUA o Youtube teve 5 milhões de acessos, correspondendo a nada menos de 44% do mercado de vídeo on-demand.

Notícias mais recentes dão conta de que o site está em negociações com produtoras como Sony, Warner Bros e Lions Gate Entertainment para exibição de filmes, diz
http://tvnet.sapo.pt/noticias/video_detalhes.php?id=48058. A um custo de U$ 3,99 por filme, com lançamento simultâneo ao DVD.

O fato é que buscar entretenimento audiovisual tornou-se uma prática de nosso dia-a-dia. Busque em sua memória as vezes em que acessou o Youtube recentemente e você confirmará isto.

Um hábito novo que traz mudanças comportamentais: o assistir TV passa a ser uma experiência individual e não mais coletiva. A TV passa estar a nossa disposição, e não mais ficamos à disposição da grade de programação que ela oferece.

Este é um movimento que tende a crescer. Serviços especializados de IPTV, ou seja, TV via protocolo IP, prometem oferecer conteúdos cada vez mais diversificados. Emissoras de TV como Fox já se adequaram e passaram a oferecer suas séries nos sites, para você assistir na hora que quiser. Uma tendência irreversível, que põe o controle da programação em suas mãos. Mais especificamente ao alcance do dedo indicador.

Adeus, zapping. Olá, clicking.

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