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A mídia impressa deve seguir a estratégia de Cortés?

Para um registro histórico: quando Hernán Cortés chegou ao atual México, determinado a conquistar o império asteca, determinou que sua frota de navios fosse queimada. Assim, garantia a seus liderados que não havia possibilidade de desistência. Eles deveriam derrotar os astecas ou morrer na tentativa.

Isto registrado, sem pretender dar uma de professor de história, vamos à relação com a mídia impressa da atualidade, antes que você pense que fiquei maluco.

Marc Andreesen é co-criador do Mosaic – o primeiro browser da história, fundador da Netscape e investidor em projetos vitoriosos com Digg e Twitter – em suma, uma autoridade em novas tecnologias.

Em entrevista recente ao Techcrunch, Andreesen diz que as empresas de comunicação não conseguem lidar com a mudança constante, o que é comum a quem trabalha na área de tecnologia. O problema, segundo ele, é que o consumidor está em mudança constante. O leitor de jornais e revistas também é leitor de sites e blogs e obtém informação sem custo através deles.

Quem está no negócio da comunicação, diz Andreesen, está também no de tecnologia, pois seus produtos estão sendo consumidos em formato digital. E precisa enfrentar a realidade de que “jornais e revistas que cobrarem pelo acesso ao conteúdo digital não vão chegar onde o público está, pois ele está em uma realidade digital e gratuita”.

A orientação de Andreseen é ao mesmo tempo simples e radical: “queimem seus navios”. Assim como Cortés precisou de um processo radical em sua conquista, ele diz que apenas quem queimar seus navios – ou seja, encerrar o negócio de mídia remunerada pelo leitor – conseguirá conquistar o mercado em constante mudança e impor seu império de comunicação no Novo Mundo da informação disponível. “Precisa queimar os navios, precisa se comprometer (com o futuro)”, porque se a mídia tradicional não queimar seus próprios navios, outros vão fazer isso – avisa Andreessen.

Quando uma autoridade fala algo de tal impacto, eu escuto. Avalio. E principalmente pondero. Creio que Andreseen foi radical demais. Mas Hernán Cortés também foi, e conquistou o maior império da América, em seu tempo. E dessa história resultou a expressão “queimar caravelas”, de tanto uso na literatura de negócios.

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TV paga ou conteúdo em demanda? Em minha opinião, os dois.

A Meio & Mensagem de 25 de janeiro traz duas reportagens que, em uma primeira leitura, parecem contraditórias. Na página 19, uma reportagem da Advertising Age relata o conflito por que passam as operadoras de TV por assinatura e os fabricantes de equipamentos para entretenimento por demanda, tais como Samsung, Boxee e Apple TV, que trazem para a tela da sala de estar o conteúdo disponível na internet.

Em paralelo, produtos como Boxee trazem a internet para dentro do televisor, em um modelo semelhante ao que alguns videogames já vinham fazendo.

No centro da questão, está a disputa pela atenção do público. Há quem aposte que a TV por assinatura está com os dias contados, que você optará por assistir on line e sob demanda os programas de TV preferidos. Há quem aposte que você preferirá ter seu sistema de TV tradicional, com grade de horários, e o adicional de poder acessar a internet sem levantar do sofá.

Na mesma edição de Meio & Mensagem, na página 10, há uma pequena reportagem sobre uma pesquisa da Deloitte que reflete minha opinião. Segundo a pesquisa, a TV ainda será o cenário dominante por muitos e muitos anos. O público prefere, como creio, adaptar-se à grade de horários do que buscar o conteúdo sob demanda.

A pesquisa aponta, inclusive, que o acesso de conteúdo pela internet fortalece a audiência da TV por assinatura: ao encontrar, por exemplo, uma série interessante na internet, o público busca acompanhá-la na grade de programação. “Os usuários irão combinar sua televisão com equipamentos isolados para internet, como laptops, smartphones, mp4 e videogames”, aposta o relatório.

Eu concordo com os rumos apontados na pesquisa. Podem mudar os formatos – cabo, satélite, ondas de rádio ou até mesmo uso da rede elétrica. Mas o hábito de sentar no sofá em um determinado horário, em um dia certo da semana, para assistir a seu programa favorito, está longe de ser abandonado pelo público.

Longa vida à TV. Longa vida à internet. Onde muitos vêem conflitos, só consigo ver convivência.

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Há momentos em que nada substitui o papel.

O jornalista free-lancer Geoffrey James (www.geoffreyjames.com), que já publicou diversos artigos sobre tecnologia, marketing e negócios, entre outros assuntos, escreveu um excelente e bem embasado artigo (blogs.bnet.com/salesmachine/?p=1894) onde apregoa a morte de jornais e revistas convencionais, com base em seis argumentos que, à primeira leitura, soam convincentes:

1. O custo de movimentar papel desde a produção até o leitor é um tremendo desperdício de dinheiro, exceto quando não for a única maneira de fazer as informações chegarem.

2. Com a Internet, o conteúdo se amplia por links, tornando-se mais completo e realmente mais informativo, de forma perfeita e insuperável.

3. O conteúdo da Internet é participativo. O leitor interage com a informação, com os autores, com outros leitores que fazem comentários sobre elas e, assim, se torna parte do que está sendo informado.

4. O conteúdo da Internet é perene (enquanto o site permanecer ativo), permitindo acesso instantâneo e a qualquer tempo.

5. O conteúdo da Internet afeta infinitamente menos o meio-ambiente. Dispensa plantar e destruir milhões de árvores por ano para levar informações de um lado para o outro.

6. Toda a comunicação de marketing na Internet é mensurável, o que é extremamente relevante nestes tempos em que o ROI (Return on Investment) tornou-se tão importante.

Racionalmente, nada a questionar. Mas cabe fazer um paralelo entre o que ocorreu com o surgimento da televisão, quando vários gurus apregoavam a morte do cinema. Assistir a um filme na TV nem de longe traz o prazer de assistir ao mesmo filme no cinema. Da mesma forma, a leitura de uma revista, bem sentado no sofá da sala, é em muito mais prazerosa do que a leitura da mesma reportagem na internet.

O jornal sofre com a instantaneidade da informação da internet. A revista, que aborda seus assuntos com viés de maior profundidade, sofre menos, e assim como o cinema, dificilmente terá fim. Precisará, assim como o jornal, passar por uma revisão que torne seu conteúdo mais adequado a leituras em profundidade, ou tornar-se mais e mais segmentada, focando em nichos de mercado. A quantidade de títulos que temos no Brasil indica que este caminho já é trilhado.

Eu agradeço. Por mais portátil que seja um notebook ou até mesmo um kindle, há momentos em nosso dia-a-dia em que nada substitui uma boa revista. Se é que você me entende.

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Quem investe em algo que se anuncia como próximo do fim?

A edição do Meio & Mensagem de 26 de outubro destaca vários investimentos importantes no meio jornal: o lançamento de um novo título, Brasil Econômico, pelo grupo português Ongoing; a compra do Diário de São Paulo pela Rede Bom Dia; a ampliação dos parques gráficos do Grupo RBS no Rio Grande do Sul e da RPC no Paraná; a ampliação da distribuição do gratuito Metro para o ABC Paulista, entre os principais.

Fosse apenas um caso isolado, poderia se dizer que há um erro de gestão, uma falha de julgamento ou uma obstinação. Mas o que se vê é um movimento de recursos para o fortalecimento do meio jornal proveniente de várias fontes e, além disto, de fontes que demonstram capacidade de visão e gestão comprovada ao longo de décadas.

Tenho falado aqui sobre o jornal em tempos de internet e reafirmo meu prognóstico de que o jornal permanecerá, mesmo após a consolidação e popularização deste novo meio. O que se lê acima corrobora esta visão.

Na mesma edição, Alexandre Zaghi Lemos traz reportagem intitulada “Jornal ainda é o coração da informação”, onde constrói uma interessante abordagem: mesmo que a rentabilidade do meio já tenha passado por dias melhores, a manutenção de títulos de jornais impressos é um pilar de credibilidade, transferível para outros meios, que apoia o negócio da comunicação como um todo. Ele cita Geraldo Leite, sócio-diretor da Singular Arquitetura de Mídia, que afirma: “a mídia impressa é o coração da informação”.

Para o jornalista Matias Molina, citado na mesma reportagem, a queda de circulação é o reflexo de um crescimento forçado nos anos 90, de maneira artificial, com “anabolizantes” (sic) caros. A crise impediu a manutenção do uso destas táticas artificiais, o que “explica parcialmente o declínio da circulação”.

Mas há fatos novos significativos, aponta o entrevistado, como o lançamento de jornais gratuitos e semigratuitos (até R$ 1,00 o exemplar) que atingem a camadas da população até então desconsideradas.

Fico feliz em perceber que minha aposta não é vã, e reforço meu prognóstico: assim como a TV não roubou o espaço do cinema, a internet não será a pedra na lápide do jornal impresso.

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