Este blog pretende abordar a comunicação no sentido amplo. Não vai tratar de propaganda – prometo! – apesar de ser esta minha profissão. A intenção raras vezes será polemizar, ao contrário: o objetivo será levar o leitor a uma reflexão mais profunda sobre a mídia e a comunicação dos próximos, digamos, 10 anos. Um pensar com os olhos no futuro e os pés no presente imediato: e-mail, blogging, microblogging, redes sociais e outras quebras de paradigmas formam as bases para discutirmos a comunicação, seus meios e suas formas para um futuro próximo.

 

TV paga ou conteúdo em demanda? Em minha opinião, os dois.

A Meio & Mensagem de 25 de janeiro traz duas reportagens que, em uma primeira leitura, parecem contraditórias. Na página 19, uma reportagem da Advertising Age relata o conflito por que passam as operadoras de TV por assinatura e os fabricantes de equipamentos para entretenimento por demanda, tais como Samsung, Boxee e Apple TV, que trazem para a tela da sala de estar o conteúdo disponível na internet.

Em paralelo, produtos como Boxee trazem a internet para dentro do televisor, em um modelo semelhante ao que alguns videogames já vinham fazendo.

No centro da questão, está a disputa pela atenção do público. Há quem aposte que a TV por assinatura está com os dias contados, que você optará por assistir on line e sob demanda os programas de TV preferidos. Há quem aposte que você preferirá ter seu sistema de TV tradicional, com grade de horários, e o adicional de poder acessar a internet sem levantar do sofá.

Na mesma edição de Meio & Mensagem, na página 10, há uma pequena reportagem sobre uma pesquisa da Deloitte que reflete minha opinião. Segundo a pesquisa, a TV ainda será o cenário dominante por muitos e muitos anos. O público prefere, como creio, adaptar-se à grade de horários do que buscar o conteúdo sob demanda.

A pesquisa aponta, inclusive, que o acesso de conteúdo pela internet fortalece a audiência da TV por assinatura: ao encontrar, por exemplo, uma série interessante na internet, o público busca acompanhá-la na grade de programação. “Os usuários irão combinar sua televisão com equipamentos isolados para internet, como laptops, smartphones, mp4 e videogames”, aposta o relatório.

Eu concordo com os rumos apontados na pesquisa. Podem mudar os formatos – cabo, satélite, ondas de rádio ou até mesmo uso da rede elétrica. Mas o hábito de sentar no sofá em um determinado horário, em um dia certo da semana, para assistir a seu programa favorito, está longe de ser abandonado pelo público.

Longa vida à TV. Longa vida à internet. Onde muitos vêem conflitos, só consigo ver convivência.

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Kindle: para poucos.

O site de tecnologia Gizmodo anunciou em sua versão brasileira a chegada às terras tupiniquins do Kindle DX, que resolve uma série de problemas encontrados por usuários do aparelho nos EUA. O modelo DX vem equipado com suporte a PDF, o que permite a leitura do enorme volume de leitura disponível para download gratuito, isso sem falar de obras fáceis de se baixar e livres de copyright da literatura. Com tela de 10”, é mais apropriado para lidar com qualquer conteúdo, não apenas PDF, mas também livros didáticos, cujas páginas de formatação pesada teriam aparência vergonhosa na tela de 6” do Kindle original.

Você deve estar se preparando para comprar o seu. Mas vá com calma: o custo calculado para que você possa pôr as mãos em um, segundo o Gizmodo, é de $995 para o Brasil, ou cerca de R$1.700,00, considerados frete e taxa de importação. Isto tudo para um aparelho que tem uma tela de apenas dez polegadas, mostra apenas imagens em preto e branco e só admite arquivos em formato PDF ou e-books comprados na Amazon.

Não precisa vasculhar muito os sites de busca para descobrir que, com este mesmo dinheiro, você compra um bom notebook ou um excelente computador desktop, topo de linha, com um monitor LCD não menor do que 18,5 polegadas.

Ou seja, ainda não é desta vez que a tecnologia dá o tiro de misericórdia em veículos de papel. Com este dinheiro, e mais o que você precisará gastar para comprar e-books atualizados pela Amazon, você pode assinar durante alguns anos seu jornal e suas revistas preferidas, com a vantagem de que o conteúdo vem em cores e você não dependerá de sinal wireless, carregadores de bateria. Apenas virar as páginas. E ainda sobra pra curtir uma passada mensal na livraria e comprar os livros que mais lhe interessem. Aliás, curtir livraria é um assunto que, um dia, vamos abordar.

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Há momentos em que nada substitui o papel.

O jornalista free-lancer Geoffrey James (www.geoffreyjames.com), que já publicou diversos artigos sobre tecnologia, marketing e negócios, entre outros assuntos, escreveu um excelente e bem embasado artigo (blogs.bnet.com/salesmachine/?p=1894) onde apregoa a morte de jornais e revistas convencionais, com base em seis argumentos que, à primeira leitura, soam convincentes:

1. O custo de movimentar papel desde a produção até o leitor é um tremendo desperdício de dinheiro, exceto quando não for a única maneira de fazer as informações chegarem.

2. Com a Internet, o conteúdo se amplia por links, tornando-se mais completo e realmente mais informativo, de forma perfeita e insuperável.

3. O conteúdo da Internet é participativo. O leitor interage com a informação, com os autores, com outros leitores que fazem comentários sobre elas e, assim, se torna parte do que está sendo informado.

4. O conteúdo da Internet é perene (enquanto o site permanecer ativo), permitindo acesso instantâneo e a qualquer tempo.

5. O conteúdo da Internet afeta infinitamente menos o meio-ambiente. Dispensa plantar e destruir milhões de árvores por ano para levar informações de um lado para o outro.

6. Toda a comunicação de marketing na Internet é mensurável, o que é extremamente relevante nestes tempos em que o ROI (Return on Investment) tornou-se tão importante.

Racionalmente, nada a questionar. Mas cabe fazer um paralelo entre o que ocorreu com o surgimento da televisão, quando vários gurus apregoavam a morte do cinema. Assistir a um filme na TV nem de longe traz o prazer de assistir ao mesmo filme no cinema. Da mesma forma, a leitura de uma revista, bem sentado no sofá da sala, é em muito mais prazerosa do que a leitura da mesma reportagem na internet.

O jornal sofre com a instantaneidade da informação da internet. A revista, que aborda seus assuntos com viés de maior profundidade, sofre menos, e assim como o cinema, dificilmente terá fim. Precisará, assim como o jornal, passar por uma revisão que torne seu conteúdo mais adequado a leituras em profundidade, ou tornar-se mais e mais segmentada, focando em nichos de mercado. A quantidade de títulos que temos no Brasil indica que este caminho já é trilhado.

Eu agradeço. Por mais portátil que seja um notebook ou até mesmo um kindle, há momentos em nosso dia-a-dia em que nada substitui uma boa revista. Se é que você me entende.

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Quem investe em algo que se anuncia como próximo do fim?

A edição do Meio & Mensagem de 26 de outubro destaca vários investimentos importantes no meio jornal: o lançamento de um novo título, Brasil Econômico, pelo grupo português Ongoing; a compra do Diário de São Paulo pela Rede Bom Dia; a ampliação dos parques gráficos do Grupo RBS no Rio Grande do Sul e da RPC no Paraná; a ampliação da distribuição do gratuito Metro para o ABC Paulista, entre os principais.

Fosse apenas um caso isolado, poderia se dizer que há um erro de gestão, uma falha de julgamento ou uma obstinação. Mas o que se vê é um movimento de recursos para o fortalecimento do meio jornal proveniente de várias fontes e, além disto, de fontes que demonstram capacidade de visão e gestão comprovada ao longo de décadas.

Tenho falado aqui sobre o jornal em tempos de internet e reafirmo meu prognóstico de que o jornal permanecerá, mesmo após a consolidação e popularização deste novo meio. O que se lê acima corrobora esta visão.

Na mesma edição, Alexandre Zaghi Lemos traz reportagem intitulada “Jornal ainda é o coração da informação”, onde constrói uma interessante abordagem: mesmo que a rentabilidade do meio já tenha passado por dias melhores, a manutenção de títulos de jornais impressos é um pilar de credibilidade, transferível para outros meios, que apoia o negócio da comunicação como um todo. Ele cita Geraldo Leite, sócio-diretor da Singular Arquitetura de Mídia, que afirma: “a mídia impressa é o coração da informação”.

Para o jornalista Matias Molina, citado na mesma reportagem, a queda de circulação é o reflexo de um crescimento forçado nos anos 90, de maneira artificial, com “anabolizantes” (sic) caros. A crise impediu a manutenção do uso destas táticas artificiais, o que “explica parcialmente o declínio da circulação”.

Mas há fatos novos significativos, aponta o entrevistado, como o lançamento de jornais gratuitos e semigratuitos (até R$ 1,00 o exemplar) que atingem a camadas da população até então desconsideradas.

Fico feliz em perceber que minha aposta não é vã, e reforço meu prognóstico: assim como a TV não roubou o espaço do cinema, a internet não será a pedra na lápide do jornal impresso.

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